Sensualidade intrínseca do Yoga

4 04America/Sao_Paulo maio 04America/Sao_Paulo 2021 0 comments Jayadvaita Categories ArtigosTags , , , , ,

Quando se perde a sensatez

Para grande parte da indústria do Yoga moderno, a sensualidade é um apelativo que gera bons retornos financeiros. 

Tal apelação se fundamenta na exploração visual do corpo exposto às posturas mais excêntricas que, na prática, afastam uma expressiva parcela do púbico. Quando pensamos no propósito do Yoga e no poder beneficente que ele traz aos praticantes, vemos que há algo de errado na propaganda pasteurizada do Yoga.

A sensualidade sempre esteve presente no Yoga. O que ocorreu nas últimas décadas foi apenas resultado da explosão midiática proporcionada pelos meios de comunicação, pela internet e redes sociais. O marketing apelativo usou do corpo para atrair a atenção do público mais inocente; e a isca mais poderosa deste instrumento foi a sensualidade. Algo simples, à primeira vista. E para não parecermos puritanos da tradição védica, quero ressaltar o conceito de sensualidade de uma forma mais profunda, ou seja, como ela é compreendida e se faz presente nos fundamentos da filosofia e, principalmente, na psicologia do Yoga.

A raíz da sensualidade

Há uma marca característica da sensualidade latina, mas a expressão latina neste contexto se referirá à língua latina e a etimologia da palavra sensualidade.

A palavra se origina de sensualitas e significa capacidade para a sensação e percepção através dos órgãos dos sentidos. Em outras palavras, sensualidade é a capacidade que a alma tem para atuar no mundo físico material. Imagine que você se encontra com fome e passa em frente a um bom restaurante. De imediato você se atrairá pelo olfato que lhe indicará que ali será possível saciar sua fome. 

De outro modo, imagine que você assiste a um filme e se comove com determinadas cenas captadas por seus sentidos visuais e auditivos, que ativam seu campo de memória e te desperta para determinadas emoções. No entanto, é apenas um filme, uma ficção que conseguiu através da comunicação entre os objetos sensoriais presentes na tela e seus sentidos de percepção. Não seria errado pensarmos que ocorreu nestes dois exemplos um fenômeno ativo da sensualidade.

Desse modo, podemos entender que sensualidade não se resume à sexualidade nem ao apelo sensual exaltado pelo marketing da indústria do Yoga. Portanto, o problema está no molde dado pelas mídias e no consumo por este tipo de superficialidade conceitual.

Antes de pensarmos numa solução, vamos analisar este mesmo conceito nos fundamentos da psicologia do Yoga.

Sensualitas coniunctio

Tanto na terminologia do latim como do sânscrito encontraremos o fenômeno da interação da alma espiritual com os elementos do mundo físico. Esta conexão sensorial se dá no campo de atuação do indivíduo. Este campo é a realidade sensorial onde se estabelece toda relação sensória entre o observador ativo e os objetos sensoriais. Enquanto observador, este não deveria se valer da superficialidade de sua existência e se tornar um objeto sensorial para outrem.

Isto quer dizer que quando expomos nossa presença sensorial à exploração de outro observador, estamos nos submetendo à dispersão de nossa própria energia que se externa como produto que ativará a imaginação do outro observador. Tal ato não é antinatural, mas restrito ao processo de cativar, atrair ou seduzir, que é comum desde nossos mais remotos ancestrais.

Quando estamos verdadeiramente integrados no processo de Yoga, entendemos que a conexão sensorial tem como finalidade intensificar os meios de aproximação interior com o Supremo, seja através dos sentidos, seja através da consciência. Qualquer outro tipo de conexão externa deverá ter unicamente a nobre finalidade instrutiva.

Psicologia do Yoga

A interação estabelecida entre o eu individual e o mundo físico pode criar condicionamentos, caso não estejamos conscientes dos elementos presentes nesta interação. Por exemplo, se não sabemos qual a finalidade das ações que executamos, certamente daremos a cada ação um valor exagerado com a expectativa de resultados furtivos que delas virão, ou seja, agimos sempre em busca de algum tipo de satisfação.

A mentalidade do Yogi tem como característica extrair satisfação na entrega de cada ação, durante o processo da ação, e jamais nos frutos da ação. Isto se dá por estar o Yogi em conexão interior com o Supremo, entendendo que é dEle que provém todas as habilidades e causas motivadoras das ações, logo, ele agirá para o prazer e satisfação do Supremo. Agir nesta consciência promove satisfação na alma do Yogi – e este é seu maior benefício.

Isto significa que há no Yoga uma definição clara de que sensualidade é a capacidade da alma atravessar a matéria e alcançar o sentido real, o espírito ou a energia que há em tudo o que está manifesto no mundo físico como objetos, pessoas, seres e fenômenos. Portanto, a ideia equivocada de abolir a sensualidade do Yoga não resolverá o verdadeiro problema do Yoga moderno, pois este problema deriva da má compreensão do que são os sentidos de percepção, do que é o mundo físico, do que é a ação e qual a finalidade de tudo isto que existe.

Sem termos uma definida educação com base no Yoga, continuaremos a ser modelados pelas tendências (muitas vezes animalescas) criadas pela mídia da indústria do Yoga. Esta educação não somente traz clareza à consciência como também alinha o propósito da vida humana aos valores mais elevados da convivência numa ideal sociedade que aspiramos construir para um futuro mais saudável e equilibrado.